Sou uma pessoa que gosta muito de contos de fadas. Desde pequena eu sempre me interessei pelo que fosse encantado... e por idéias que me levassem cada vez mais longe... que me fizessem imaginar mundos muito diferentes do que esse em que vivemos. Não que eu não goste desse mundo... acho que a Mamãe Natureza sabe o que faz e pintou obras lindas na nossa Terra, assim como Deus, em nossos corações.
E foi inspirada nessa obra já existente que eu escrevi, há algum tempo atrás, uma série de quatro contos de fadas. O primeiro, entitulado 'Sarah, a Princesa do Gelo' foi baseado numa foto que encontrei num jogo de computador. Resolvi dividir com vc, meu caríssimo internauta, essa história que pode não ter acontecido. ^^
Sarah, a Princesa do Gelo
Dentro das artérias das paredes daquele palácio, corriam segredos e decepções... orgias regadas aos mais caros licores ... trapaças e escândalos nas mais altas castas da sociedade. Nesse berço nascera Sarah . De pele pálida e mente afiada, ela possuía a beleza das flores eternas . Pudera ... vivera sua vida cercada de luxos e dos mais capacitados esteticistas da época ... à distância de um estalar de dedos. Passara horas e horas por dia nas bibliotecas do palácio, absorvendo todo o conhecimento disponível, só pelo prazer de sentir-se superior.
Seu sonho era continuar para sempre naquela situação ... diferente das outras jovens pueris da corte, ela gostava daquilo. A rotina de pisar em cima das pessoas para ter o que quer, maltratar corações e sentir-se superior não era sinônimo de falta de moral.... essa era a sua moral.
Os homens cercavam-na festas e bailes e ela, como a abelha rainha, escolhia o melhor ... ou os melhores. Amor e paixão não valiam a pena , dizia ela ... quando se tem quem se deseja sem esforço, amor pode ser substituído por inúmeros momentos de prazer ... e quando a solidão chegava, era por pouco tempo... como quem bebe um copo d´água, Sarah bebia um homem... bebia uma vida.
Como havia sido anos antes. Rafael de Renólia , um jovem atraente e robusto, capacitado em todas as artes de caça e dança, havia caído de joelhos diante da sua beleza ao pedí-la em casamento. A princesa , acostumada à dor dos homens, vira ali uma chance de machucar mais um coração, arrematar mais uma alma para a sua coleção pervertida de homens aos seus pés. Ao dizer sim, ela exigira uma viagem anterior ao casamento, às regiões frias do norte de Bristólia, onde seu pai possuía uma propriedade no alto das montanhas. Numa noite fatídica, Sarah levou Rafael para uma caminhada na neve , nas partes escuras das montanhas que ela conhecia tão bem por haver passado tanto tempo naquele lugar. Rafael, pelo contrário, estava perdido, dependendo somente das direções de Sarah até mesmo para saber para que lado ficava a mansão onde estavam naquele dia. O calor dos corpos dos dois, no meio da neve , era o suficiente para derretê-la.... e os dois ali consumaram algo que o jovem tanto esperava... ter o corpo da princesa que ele tanto adorava como uma deusa. Como quem luta pela vida, a sua satisfação foi vê-la plena ... satisfeita com um sorriso em seus lábios e palavras agudas de prazer, penetrantes como a mais afiada das espadas. E com um último beijo, a princesa selou o destino do jovem ... pedindo-lhe que esperasse por uma surpresa ela se distanciou, como uma viúva negra que despedaça seu parceiro, e deixou ali, no escuro das montanhas geladas, para o que seria seu fim gélido e solitário. Incapaz de achar o seu caminho de volta e devido a imensidão do local, Rafael pereceu naquilo que parecia um infinito branco, sem sombra de retorno. O seu corpo azulado permaneceu lá, como um símbolo da crueldade da índole de Sarah.
Anos depois ,numa tarde de inverno, ela olhava pela janela ...e de certa forma, a visão das árvores mortas lhe confortava, lembrando-lhe do seu brilho e que nem a natureza podia lhe comparar em beleza, sendo que ela continuava brilhante ... esplendorosa em qualquer estação. E ao longe, quase como parte do horizonte, surge uma figura que lhe chamava a atenção. Em meio às árvores mortas , ele parecia desaparecer, tanta era a semelhança de seu porte frio e pálido... morto, o que chamara a atenção de Sarah de imediato. “ Quem será essa figura misteriosa?” perguntava-se a princesa, filha de Hector Kleiffenbauer, o rei unânime de toda a região de Bristólia, próspera desde o inicio de seu reinado, e da “Rainha Diamante” , como era chamada sua mãe, Regina Kleiffenbauer, popular entre o reino por usar jóias voluptuosas de diamantes, cada uma tão cara quanto uma manada de 100 cavalos.
Excitada por aquilo que lhe parecia difícil de conseguir, desafio que não lhe era imposto há muito devido a facilidade de recursos a sua disposição, a jovem dirigiu-se ao pátio do palácio, onde as árvores mortas e o estranho visitante se encontravam. Seu vestido de panos finos esvoaçava na direção do vento... assim como suas longas mechas loiras, grandes como um véu. Ela fez questão de sair sem suas acompanhantes, o que havia deixado o rei um tanto desconfortável, mas nem ele era capaz de se opor a obstinação de Sarah, que era prepotente desde criança.
Ao aproximar-se do indivíduo, notou-lhe o anel no dedo anelar direito. Uma pedra de esmeralda azul, no formato de uma gota de orvalho. Ao olhar em seus olhos, ela sentiu-se atraída por demais para falar ... Sarah despiu-se ali mesmo na presença do estranho, como a um chamado de seu mestre, obedeceu-lhe cada palavra, cumpriu-lhe cada desejo e num momento de êxtase, seu corpo trêmulo conheceu a plenitude, proporcionada pelos dedos frios de um estranho ... no final da viagem que sentira ter feito, para fora e para dentro de seu corpo, para locais secretos da sua libido e planícies inexploradas de sua alma, o homem lhe estendeu a mão contendo um anel, exatamente aquele que ele usava , e ordenou-lhe que colocasse. Como não podia ser diferente, como uma ordem de seu mestre, ela colocou a jóia em seu dedo anelar direito, a tempo de sentir a temperatura dela, mais fria do que qualquer coisa que havia tocado, fria a ponto de queimar toda a pele que tocava. A máscara de gelo que o estranho usava caiu e como no despertar de um sonho, ela viu o seu passado. Ou parte dele. Rafael de Renólia surgiu, de dentro da face daquele estranho, como um pilar de gelo que derrete no calor do sol, e a medida que sua face tornava-se ruborizada, a dela perdia a cor, tornando-se mais pálida do que o habitual, numa mistura do azul do céu com o branco dos olhos do jovem que ali estava.
O jovem ria e a princesa, sem entender nada , sentia uma dor insuportável , como se rasgassem suas entranhas , pedaço por pedaço. Ao tentar tirar o anel, ela percebeu que era tão difícil quanto tirar um membro de seu corpo, senão impossível. Ao seu redor, tudo congelava numa reação em cadeia, que se alastrou até o palácio , aos pés de Hector, seu pai.
Até os dias de hoje, Rafael de Renólia vive com sua esposa no palácio de Bristólia, onde pela mesma forca que amaldiçoou Sarah, o jovem chegara ao status de rei.
Todos os anos, o rei Rafael comemora um dia com todos os súditos do reino... e cada um dos homens que houveram sido tocados pelas mãos malditas de Sarah comemoram esse dia com festa e júbilo... com tambores, cantando : “ ...e quando a justiça veio sobre o mundo, Sarah se tornou tão fria quanto seu próprio coração” .
As árvores daquele bosque nunca mais floresceram e nem deram frutos. Na exata hora do exato dia da transformação de Sarah, se você ouvir de perto, no meio daquelas árvores mortas, você verá que Sarah está lá, contando histórias de seu passado e falando sobre coisas do presente e futuro. Eterna e gélida, Sarah foi amaldiçoada a permanecer naqueles arredores, dividindo o conhecimento que havia adquirido nas vastas bibliotecas do palácio com todos os que se aproximam e obrigada a contar histórias a todos . Ela que usava todos para os seus fins, agora é obrigada a servir a todos por nenhuma recompensa. Sozinha, ela passa seus dias e noites vagando no bosque sem vida.
|