Mexendo em meus arquivos pessoais, encontrei um texto que escrevi no dia 30 de Março de 2006, sobre o dia de um rapaz de 23 anos, morando em Florianópolis. Com um toque de humor ácido, a história desse menino se desenvolve de um jeito bem louco, com um final extremamente realista. Uma crítica ao estilo de vida workaholic, mas mais que isso, um desabafo. Senhoras, senhores e tudo que tem no meio, 'Meu Dia que Não Aconteceu'.
'Porque é só mais um dia, eu acordo.
Mas isso não incomoda o Presidente dos USA, não importa ao marinheiro numa missão subaquática e não se faz sentir para o índio africano que acabou de encolher mais uma cabeça. E ao levantar a minha do travesseiro, eu percebo que só eu mesmo me incomodei com isso. E essa visão pessimista me carrega até a cozinha onde eu tomo o meu café da manhã saudável pra durar mais um pouquinhu e escovo os meus dentes pela infinitésima vez na minha vida. O processo todo de me arrumar de manhã não me intriga muito, e não é o começo da nossa história, porque ela já vem acontecendo há 23 anos, e não é hoje que algo de mais vai acontecer. Portanto
FIM.
Daí depois do FIM, ou de eu estar pronto pra sair, eu pego minha mochila e desço a rua do Padre que veio de Roma, ou do Padre que é Roma, na ilha de Florianópolis, no Brasil e não na Itália. Passando pela rua das putas, um susto : nada de extraordinário aconteceu até agora, uma hora depois de eu ter acordado. O que quase me faz voltar pra cama, porquê a sensação de ter saído da cama só pra caminhar rua abaixo não me parece tão satisfatória quanto dormir.
Condução bem sucedida, eu chego num lugar onde, por livre e expontânea vontade, eu obedeço pessoas que eu não conheço que me mandam fazer coisas que eu não quero fazer, e que, pela camisa social, a calça preta com risca de giz e a maneira como eu não estou me sentindo a vontade para dançar sem motivo, deve ser ´trabalho´. Disseram pra mim um dia que se eu for pra ´trabalho´ várias vezes num mesmo mês, e fizer o que me mandam fazer direitinho, no final do mês eu ganho números maiores num espaço com meu nome em um lugar que guarda esses números. Quanto mais números eu acumulo, mais direito eu tenho de fazer o que eu quiser na cidade, o que me agrada, mas me faz cada dia mais desejar que eu gostasse de viver na floresta.
Sentando na cadeira, na frente do computador, eu olho pros lados e vejo algumas pessoas viradas em direção aos seus computadores em quase perfeito silêncio, e imagino rápido quantas coisas elas devem estar pensando e não dizendo, assim como eu. Quando eu atinjo a metade do dia, sem querer, penso em números grandes, e saio pra comer saudável pra durar mais um pouquinho. Na volta, como tudo está igualzinho como quando sai, e como as pessoas estão todas de volta também aos seus lugares, eu assumo que tudo continua igual a antes, então não vou ser eu que vou começar a fazer diferente.
Há uma hora pra sair do trabalho, eu olho pra parede e vejo uma borboleta cintilante verde alaranjada com carrochinhas na garupa, e nas ponta de suas cinco antenas, uma nave espacial com nuvens ao redor.
Tendo certeza que a borboleta deve ser uma delicia, eu a como e me levanto para ir pro banheiro, antes tirando os meus sapatos e cantando alto pra alegrar quem esta à minha volta e saciar a minha vontade de falar mais alto um pouco. Ninguém liga, porque a musica que esta rolando no grupo do lado também é de muito bom gosto, e as pessoas sorriem e se ajudam pra acabar o trabalho mais rápido pra ir pra casa. Beijando quase todo mundo no caminho, eu chego no banheiro, lavo o meu rosto e converso vigorosamente com alguém que eu nunca vi, mas que me elogiou pela maneira como eu penteio o meu cabelo, me fazendo pensar que valeu a pena mesmo ter gastado tempo na frente do espelho de manha.
Minha chefe rindo despreocupadamente da maneira como não consegui terminar aquele serviço tão facinho que comecei a semana passada e que estou me enrolando por estar ocupado demais com as 500 mil outras coisas facinhas que tenho pra fazer, diz que ela também passou por dificuldades quando estava começando, e que a demora não tinha problema, porque ela não estava ali para colocar expectativas absurdas sobre mim, e sim somente para me guiar pelo caminho certo, e investindo em mim com preocupação no meu futuro, me garante ser um ótimo profissional. Ao voltar pra minha cadeira, eu continuo a trabalhar. Descalço sobre areia de praia e tomando um Sex on the Beach, eu desenvolvo tudo o que posso até o final do dia de trabalho, e desligo tudo com a sensação de ter feito grande progresso pessoal e de ter aprendido muito, mesmo não tendo concluído nem metade do que haveria de fazer, mas com a certeza de que amanha vou estar muito mais apto para isso. Condução de volta pra casa bem sucedida, eu passo pela rua das putas, onde todas elas bem formosas e rechonchudas, com roupas lindas que acentuam a cor dos olhos e colhendo flores para entregar pras pessoas que passam, cantam copiosamente, sem duvida sendo aplaudidas por quem passa, ou quem fica um pouquinho para ouvir mais e entregar um merecido dinheiro numa cestinha de vime cheia de outras notas.
Eu espero subir a rua do Padre que veio de Roma, ou do Padre que é Roma, e ao invés disso subo uma rua cujo nome inspira a liberdade de um homem que tinha mulheres, homens e filhos e nenhuma religião, mas amava a quem queria sobre todas as coisas e era amado de volta por quem lhe importava por ser tão espontâneo, caridoso com quem precisava e por não ter colocado fogo em ninguém por volta do século XV.
E abrindo a porta de casa, no cair da noite, a luz cintilante da lua invadindo a janela da minha sala traz pequenas estrelinhas que se formam nos objetos de prata sobre os móveis, e o amor da minha vida que acabou de chegar senta na mesa e fala sobre jantar como alguém fala sobre o tempo. Eu sento no seu colo, e me preparo para dar um beijo em sua boca, quando percebo que por trás da cabeça dele sai um inseto viscoso e gordo, com 13 patas e espinhos, e 5 tentaculos pontudos que vem em minha direção e furam o meu olho esquerdo.
Sentado na cadeira da cozinha, sentindo fome no meu apartamento, eu penso no jantar como alguém que não tem mais nada pra fazer, e abro a minha geladeira para preparar mais um sanduíche. No meu quarto, velas acesas projetando uma luz amarela sobre os objetos cheios de pó em cima da escrivaninha me fazem compania, e eu rio de mim mesmo ate dormir, ouvindo uma puta quebrar uma garrafa sobre a placa na esquina que diz : ‘Rua Padre Roma’. ' |